Colonos (ilegais) se apresentam como nova vanguarda do sionismo

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Por Breno Altman.

A colônia de Eli, no ponto mais alto de Binyamin, a área central da Cisjordânia, é um posto avançado dentro das fronteiras que, por deliberação da ONU (Organização das Nações Unidas), deveriam pertencer a um futuro Estado palestino. O conjunto residencial, formado por casas amplas e refinadas, sempre de cor bege, em ruas limpas e arborizadas, está entre os assentamentos mais bem cuidados.

Mikhail Frunze/Opera Mundi

Assentamento de Eli lembra confortáveis condomínios que costumam circundar as grandes cidades do mundo

Os motivos de seu prestígio são religiosos e políticos. Fica a poucos quilômetros de Shilo, citada pela história bíblica como a capital dos judeus no tempo dos juízes, logo após a fuga do Egito e a criação das doze tribos lideradas por seus magistrados. Também é quase vizinha de Ariel, a cidade-modelo construída nos territórios ocupados, com instalações modernas e uma importante universidade.

Seu habitante mais ilustre é um judeu argentino chamado Danny Dayan, que foi durante seis anos (2007-2013) o presidente do Conselho da Judea e Samaria, nomenclatura oficialmente utilizada em Israel para designar a cordilheira na margem ocidental do rio Jordão. Nestas montanhas, relata a Bíblia, viveram os patriarcas e Abraão teria anunciado a seus descendentes que era a terra prometida.

“Nós somos a nova vanguarda do sionismo”, afirma Dayan. “Temos a missão histórica de recuperar a terra da qual fomos expulsos há dois mil anos. Não somos invasores, como insiste a narrativa árabe, mas os retornados. Essa região é estratégica para a defesa e o desenvolvimento de Israel.”

Empresário da área de informática, o líder dos colonos vendeu sua companhia para se dedicar integralmente à causa que postula. Apesar de respeitar as tradições, não é um religioso. Orgulha-se do telegrama que recebeu de Menachem Begin quando completou seu bar mitzvah. Declara-se admirador de Jabotinsky, o ideólogo da direita sionista, mas confessa seu crescente carinho por Ben-Gurion, o chefe da independência.

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Palestinos que vivem na região são contratados para trabalhos nos assentamentos e utilizam meio de transporte diferente dos judeus

Dayan empenha-se com afinco para atrair investimentos e modernizar a região. Das cinco áreas que compõem a jurisdição do conselho que presidiu, Binyamin é a mais desenvolvida. São 54 comunidades de médio e alto luxo, guardadas dia e noite por soldados do exército ou seguranças particulares treinados pelas forças armadas. Estão protegidas pelo sistema de cercas e muros que as separam das aldeias palestinas, enquanto estradas bem pavimentadas as conectam entre si.

Às vezes é possível ver carros e ônibus com placas palestinas passando por estas rodovias, depois que atravessam os pontos militares de controle. As restrições são maiores quando sobe a tensão entre colonos e a população das vilas. Os serviços de transporte público, porém, são segregados, apesar de não haver regra escrita a respeito. Ônibus israelenses atendem apenas os assentados. Palestinos contratados para algum trabalho são transportados por veículos diferentes, na maioria das vezes fornecidos por empregadores ou intermediários.

Muitos residentes trabalham em Jerusalém ou Tel Aviv. As atuais colônias são distintas dos kibutzim, com seu modelo comunal e estrutura produtiva. Parecem mais com os confortáveis condomínios que costumam circundar as grandes cidades do mundo. Mas há empreendimentos privados que vão sendo implantados.

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Danny Dayan, ex-presidente do Conselho da Judea e Samaria: “nós somos a nova vanguarda do sionismo”

Um deles, em Binyamin, é a vinícola Psagot, nome da comunidade na qual está instalada. Seu proprietário, Yaacov Berg, vende 200 mil garrafas de vinho branco e tinto por ano, exportando 60% de sua produção. As garrafas vem etiquetadas como “produto de Israel”. Se o rótulo identificar que são mercadorias de colônias na Cisjordânia, correm o risco de serem boicotados por alguns países.

Expansão

A comunidade internacional, afinal, considera que toda esta região foi ocupada ilegalmente, na guerra de 1967. A resolução 242 das Nações Unidas obriga Israel a se retirar para trás da Linha Verde, fixada no armistício de 1949. Mas desde a conquista destes territórios, com trabalhistas ou conservadores, a política sionista tem sido de expandir a colonização.

Atualmente são 121 assentamentos reconhecidos oficialmente pelo governo de Israel, de acordo com o Ministério do Interior, no qual vivem 350 mil colonos. Mais 300 mil vivem na parte oriental de Jerusalém e outros 20 mil nas Colinas de Golã. Além de Ariel, outras três colônias ganharam, ao longo do tempo, reconhecimento como cidades: Modin Illit (controlada pelos ultraortodoxos), Maale Adumim e Betar Illit.

Apesar de ser difícil calcular, através do orçamento, o conjunto dos subsídios que o governo separa à colonização, o movimento Paz Agora avalia que entre 540-600 milhões de dólares são gastos anualmente para subvencionar os assentamentos, incluindo gastos com segurança.

Um dos pouco itens identificáveis nos documentos oficiais é a transferência para os conselhos municipais da Cisjordânia, que totalizou 322 milhões de dólares no ano passado, equivalente a 8,9% de todas as verbas recebidas pelas cidades israelenses, ainda que sejam apenas 3,8% os cidadãos morando nos territórios. Outro dado importante: o investimento em habitação, excluindo Jerusalém, foi de 123,14 milhões de dólares, significando 15,36% das verbas nacionais nessa rubrica.

A ocupação teria sido bom negócio até 1987, segundo o economista israelense Shir Hever, do Centro de Informação Alternativa (AIC). Os custos eram baixos, Israel coletava todos os impostos da área, tinha mercado cativo para seus produtos e empregava mão-de-obra palestina, muito mais barata, em suas empresas. Além disso, controlava fontes de água que representavam ao redor de 50% de seu consumo.

Após este período, no entanto, com a aceleração no estabelecimento de novas colônias, as curvas teriam começado a se inverter. Os lucros iriam definitivamente desaparecer após a segunda intifada, em setembro de 2000, quando as fronteiras foram fechadas e Israel parou de contratar trabalhadores palestinos, além de aumentar extraordinariamente as despesas militares.

“Muitas empresas israelenses fazem dinheiro com a colonização, especialmente aquelas envolvidas em segurança e construção”, explica Michel Warschawski, também do AIC. “Mas os interesses geopolíticos atualmente se sobrepõem aos econômicos. O Estado financia a colonização por razões estratégicas, fortalecendo os colonos e abrindo boas oportunidades para as companhias beneficiárias dessa expansão. O resultado para as contas públicas, contudo, é deficitário.”

O governo não desmente o incentivo à marcha rumo ao leste, mas alega motivos transitórios. “Ainda estamos em situação de conflito potencial”, afirma Yigal Palmor, porta-voz do Ministério de Relações Exteriores. “Os assentamentos são importantes para nossa política de defesa, pois fortalecem nossas fronteiras.”

Os assentamentos, enquanto a paz não chega, vão animando judeus seculares e religiosos, em uma demografia inversa àquela do movimento kibutzim no século XX. As estatísticas do Conselho da Judea e Samaria revelam que apenas 20% dos colonos são não religiosos, contra 10% de ultra-ortodoxos e 70% de religiosos moderados.

Demografia

Essa composição ajuda a aumentar a taxa média de fertilidade, maior entre os grupos de seguidores à risca dos ensinamentos da Torá. A família de Danny Dayan, por exemplo, é composta apenas por ele, a mulher e um filho. Outros líderes de assentamentos têm proles bem mais numerosas, uma arma importante para consolidar a presença judaica na Cisjordânia.

Mikhail Frunze/Opera Mundi
Rafael Kaufman mora na colônia de Tzufim, ao norte. Nascido no Uruguai há 41 anos, desde 2004 vive no assentamento. Tem seis filhos, uma moça e cinco rapazes. Religioso, anda pelas montanhas com seu quipá e uma pistola 9 mm na cintura, que garante nunca ter usado.

Trabalha como guia turístico, e ajuda o movimento dos colonos na divulgação internacional, dando palestras em vários países. Também arrecada recursos para que outros assentados possam abrir seus cultivos e criar pequenos postos avançados na região.

“Israel não pode cometer duas vezes o mesmo erro, os judeus não voltarão a abandonar a terra prometida”, declara Kaufmann, no alto de uma montanha com vistas para o rio Jordão. “Deus nos deu esse chão, que defenderemos com unhas e dentes, como manda os ensinamentos.”

Muitos pensam como ele, e vários de forma ainda mais intensa. Ao sul, fica cidade de Hebron, a maior da Cisjordânia. Está dividida em dois setores, um sob controle da Autoridade Palestina e outro do governo israelense. São aproximadamente 250 mil habitantes de origem árabe vivendo em 80% do perímetro urbano, e 750 judeus nos restantes 20%.

A principal artéria comercial da cidade, a rua Shuhada, que atravessa o centro velho, lembra uma cidade fantasma. Lojas estão fechadas e residência abandonadas. Após a rebelião palestina de 2000, o exército israelense isolou a área, a pretexto de salvaguardar cinco assentamentos judaicos. Vários postos militares controlam entrada e saída de transeuntes. Nenhum palestino está autorizado a dirigir carros ou motocicletas na zona de isolamento. Apenas os colonos judeus.

Uma dessas colônias, situada no topo de uma colina que nasce na via bloqueada, é a de Tel Rumeida, Em torno de 150 moradores, protegidos por militares, ali vivem, estudam e rezam.  Muitos trabalham fora, se movimentando sob permanente custódia. Vários grupos sionistas ajudam a arrecadar recursos para apoiar a comunidade.

Mikhail Frunze/Opera Mundi

Cerca de 150 judeus vivem na colônia de Tel Rumeida, em Hebron, protegidos 24 horas por militares

Uma destas organizações é a Jabad Lubavitch, entidade religiosa com ramificação em vários países. David Halon, norte-americano de Nova Iorque, foi para Hebron como parte do esforço para estimular estudos bíblicos entre soldados e civis do assentamento. Tem orgulho do que faz. “Somos um exemplo para os judeus do mundo todo”, afirma. “Aqui somos 500 contra 250 mil árabes. Resistimos sem medo, ao lado dos nossos militares.”

Olha para os vizinhos palestinos, ao alcance da vista, poucos metros adiante, mas divididos por uma cerca. “A Torá diz que os judeus devem ter o comando”, declara. “Somos o povo eleito e ganhamos na guerra, pela vontade de Deus, o direito de estarmos aqui. Eles podem ficar, desde que sejam obedientes às ordens divinas.”

Fonte: Ópera Mundi

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